Red Tails

“Red Tails” é um daqueles filmes cujos bastidores são mais interessantes que o filme em si. A saga dos pilotos negros na II Guerra, superando o preconceito para mostrar seu valor, deveria ser uma trilogia épica mas foi sabotada pelos distribuidores que não quiseram investir na ideia do George Lucas, o pai do projeto. Titio George, quem diria, foi esnobado pela indústria, colocou dinheiro do seu próprio bolso para o filme ser lançado e foi obrigado a repensar a obra como um filme único, mais focado nas batalhas aéreas do que na trajetória de seus heróis.

Negros lutando contra a intolerância dos próprios Aliados em plena Segunda Guerra, George Lucas lutando contra a intolerância da indústria cinematográfica que se recusou a financiar um filme com elenco negro em pleno século 21. Talvez o mundo não tenha mudado tanto assim de lá pra cá.

O resultado é que “Red Tails” tornou-se um frankenstein irregular que às vezes parece filme feito para a TV e às vezes parece um videogame da II Guerra. É bem verdade que depois de “Band of Brothers” e “The Pacific”, o tal “filme feito para a TV” não é mais uma referência negativa. Mas a inevitável comparação com as minisséries de Spielberg mostra que George Lucas escolheu o caminho errado para o seu projeto. Deveria ter pedido conselhos ao amigo, quem sabe o telefone de alguém da HBO.

Os créditos da direção ficaram com Anthony Hemingway, experiente na TV em séries como “The Wire” – da qual ele resgatou alguns bons atores para o filme. Porém, no longo processo de produção que se arrastou desde 2009, o próprio Lucas teve que botar a mão na massa para rodar cenas adicionais, principalmente as tais batalhas aéreas em CGI que lembram bastante umas tais guerras nas estrelas, com os pilotos fazendo estripulias que nem o Anakin ousaria.

O que restou da história dos Tuskegee Airmen foca no grupo liderado por Terrence Howard, cheio de discursos motivacionais que não empolgam, e Cuba Gooding Jr., um tanto quanto perdido. Entre seus comandados, todos os clichês da guerra: o líder que tem problemas com a bebida, o impetuoso ás que não segue ordens, o coadjuvante engraçadinho responsável por gritar “damn!” no meio da batalha e, é claro, um romance impossível. Lá no topo da burocracia intolerante do exército americano, de novo temos um Bryan Cranston desperdiçado. Do outro lado, os alemães são tratados como vilões de Comandos em Ação. Todos personagens rasos, vítimas de um roteiro fraco que faz uma história real, naturalmente emocionante, parecer uma ficção mal contada.

Um filme bem intencionado que ficou pelo caminho, “Red Tails” ainda funciona como aventura de guerra para matinês despretensiosas, com seu espírito de filme clássico e suas batalhas de videogame. O seu maior legado, entretanto, foi ter feito George Lucas desistir dos blockbusters, decepcionado com a indústria e com o feedback negativo de todos os seus trabalhos mais recentes. É, amigos, o pobre George cansou de ver a gente reclamar dele na internet e jogou a toalha. Vai se dedicar a filmes mais simples, daqueles que ele queria fazer nos anos 70 antes de ficar muito rico com Star Wars. Boa sorte pra ele.

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