Cosmópolis

David Cronenberg, o cineasta do mundo estranho, resolveu ser mais bizarro no conteúdo do que na forma. Seus dois últimos filmes, “Um Método Perigoso” (2011) e “Cosmópolis”, são mais focados na troca de diálogos do que na violência ou no horror visual de obras anteriores. A diferença é que, no primeiro, os diálogos seguiam um rumo muito lógico, com Freud e Jung em busca de conclusões concretas. Já no segundo, o objetivo é justamente o contrário. Seus personagens falam o que vem na cabeça, as respostas são evasivas, as frases desconexas.

Outra coisa em comum entre os dois filmes é a falha de casting. Ou melhor, não sei dizer se é uma falha ou se Cronenberg é um gênio por colocar essa gente esquisita em cena pra causar estranhamento. Antes era Keira Knightley, irritante demais como a problemática Sabina. Agora é Robert Pattinson, ele mesmo, o vampiro-fada. Pattinson é inexpressivo, o que à primeira vista até combina com seu personagem apático e atordoado, mas não deixa de ser ruim.

Ele é o jovem executivo bilionário Eric Packer, que atravessa Nova York em busca de um simples corte de cabelo dentro de sua limousine high-tech, recebendo convidados como se fosse o apresentador de um talk show sobre rodas, isolado do mundo, lento no trânsito caótico da cidade e cercado de seguranças. Passam por ele nomes como Samantha Morton, Juliette Binoche e Paul Giamatti.

As conversas variam sobre os temas tempo, tecnologia, capitalismo. Existe um clima de paranoia no ar. Os seguranças estão preocupados. Uma crise está acontecendo lá fora e não é só financeira. O presidente está correndo perigo. Os anarquistas usam ratos para ameaçar o seu mundinho yuppie futurista. O filme ameaça abraçar uma estética cyberpunk, mas nunca chega às vias de fato.

O roteiro de Cronenberg foi baseado em um livro de Don DeLillo, escritor americano que define sua obra como um tratado sobre “viver em tempos perigosos”. O perigo está por toda parte, das ameaças de terrorismo ao exame de próstata que Packer faz sem sair do carro. A trama não tem uma linha bem definida, são como pequenos episódios interligados com o personagem trafegando entre os mundos, na maior parte do tempo dentro da segurança do seu casulo motorizado – uma metáfora bem evidente. Quando ele abandona essa proteção, o perigo externo e a insanidade interna naturalmente crescem.

Mas o que chama a atenção mesmo em “Cosmópolis” e em seu protagonista é a banalidade do seu objetivo, o abismo de intimidade entre ele e sua esposa e o vazio de algumas observações, como na cena em que ele é avisado que um músico conhecido morreu e diz: “eu ouvia as músicas dele no meu elevador”.

Isso tudo passa uma mensagem deprimente sobre os tempos modernos, mas não evita que o filme acabe se tornando uma experiência muito fria, distante, um longo papo-cabeça que por duas ou três vezes recorre a tiros repentinos para despertar a atenção. Esses tiros, o tal exame de próstata mais sonoro do que visual, os simbólicos ratos gigantes e o perturbado personagem de Paul Giamatti são alguns dos fantasmas do velho Cronenberg batendo na lataria da limousine querendo entrar, gritando para serem ouvidos e salvos da apatia que toma conta do protagonista, do filme e do resto do mundo.

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