Argo

Em 1979, a embaixada norte-americana no Irã foi invadida e seus membros foram feitos reféns em um cárcere que durou mais de um ano. Seis deles conseguiram fugir e ficaram escondidos na casa do embaixador canadense. Era preciso tirá-los de lá o mais rápido possível, mas como fazer isso em uma cidade que é um barril de pólvora? A solução encontrada pela CIA foi tão esdrúxula que parece mentira, e permaneceu confidencial até pouco tempo atrás, quando o presidente Bill Clinton resolveu torná-la pública.

A saída encontrada, considerada pela alta cúpula da inteligência americana como “a melhor das más ideias”, foi apelar para Hollywood. Um homem da CIA (Ben Affleck) disfarçado de executivo do cinema estaria em Teerã procurando locações para seu novo filme de ficção científica, uma cópia vagabunda de Star Wars chamada “Argo”. Na volta, ele traria os seis fugitivos disfarçados como sua equipe de produção. Para tornar a missão verossímil, profissionais do cinema de verdade se envolveram, um roteiro foi comprado, storyboards desenhados e eventos para a imprensa trataram de criar a cortina de fumaça.

Se não fosse baseado em fatos reais, é provável que ninguém acreditasse nessa história absurda – o que transforma o “Argo” de verdade em uma brincadeira muito séria. O cinema é uma ilusão, o filme dentro do filme é de mentira, mas o plano é verdadeiro. Dá pra perder horas refletindo sobre esses paradoxos da metalinguagem, ainda mais se você levar em consideração que Ben Affleck é o diretor do “Argo” de verdade e interpreta o idealizador do “Argo” de mentira.

Co-irmão do “Munique” de Spielberg no tema espinhoso do Oriente Médio e na ambientação nos anos 1970, “Argo” tem essa vantagem de poder ser irônico lidando com um assunto tão delicado. Em determinado momento, a edição alterna entre o depoimento de uma guerrilheira iraniana na TV, falando muito sério sobre como os EUA manipulam a história do mundo, e a festa de pré-lançamento do filme fake para a imprensa, justamente a prova de que a mentira na América vai muito além do que é mostrado no cinema.

Assim, “Argo” é mais do que um thriller político bem conduzido por Affleck e bem interpretado por um elenco que ainda conta com Bryan Cranston, Alan Arkin e John Goodman. É o cinema falando dele mesmo, do caráter duvidoso da indústria, de seu papel artístico e social, de seu poder fantástico, envolvente, escapista (repare nos soldados iranianos encantados com os storyboards de alienígenas e cowboys do espaço), de como uma mentira bem contada pode interferir na história e de como a própria história muitas vezes consegue ser mais fantástica que o cinema.

Um comentário sobre “Argo

  1. Assisti ontem. Não gostei tanto quanto o filme anterior que o Affleck dirigiu, acho que em parte porque não simpatizei com nenhum dos seis \”exilados\”. Acho que faltou trabalhar melhor aqueles personagens. No final, todo aquele suspense no aeroporto (muito forçado, aliás, como a cena do carro não querendo dar partida) me deixou meio sonolento.

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