A Caça

Lucas (Mads Mikkelsen, o Hannibal Lecter da TV) é um professor divorciado, querido por amigos e alunos e respeitado na cidade. Sua vida vira de cabeça para baixo quando uma de suas alunas, que também é filha de seu melhor amigo (Thomas Bo Larsen), se decepciona com ele e resolve inventar uma história de birra: segundo Klara (Annika Wedderkopp), o sempre solícito e carinhoso Lucas teria abusado sexualmente dela.

A imagem de Lucas diante da comunidade imediatamente se transforma. A atenção que ele dedica às crianças, sua reclusão, sua solidão, qualquer coisa se torna motivo para se suspeitar dele. Sua tia no Facebook diria: “eu sempre soube que esse cara escondia algo”, com uma tocha na mão.

A partir daí, Lucas vai comer o pão que o diabo amassou, mesmo que não haja provas de que ele fez alguma coisa. A única evidência é aquele primeiro relato da garotinha que nem sabe o que é abuso sexual, pedofilia, nada disso, só ouviu a palavra “pau” do irmão adolescente. Mas uma criatura tão pura e angelical jamais mentiria sobre algo tão sério. E mesmo quando ela tenta desmentir, alguém aparece para dizer que ela só está tentando esquecer o trauma.

“A Caça” é um filme arrasador sobre a necessidade da sociedade de ver sangue e encontrar um culpado mesmo que não haja crime. Sobre o poder de um boato, sobre ser mais fácil acreditar na monstruosidade de um homem suspeito do que na simples ideia de que crianças mentem às vezes. É sobre uma imagem suja que talvez nunca consiga ser lavada, seja lá na Dinamarca, seja aqui no Brasil. O filme lembra demais o Caso Escola Base, quando funcionários de uma escola paulistana foram injustamente acusados de abuso sexual contra alunos em 1994.

Naquele caso, a imprensa foi a grande responsável pela condenação prematura dos suspeitos. Em “A Caça” a imprensa é substituída pela diretora da escola, seus assessores, os pais dos demais alunos e todos os demais membros da comunidade. Perceba como o adulto conduz o depoimento da menina sutilmente, daquela maneira que a imprensa costuma fazer para criar a verdade que lhe convém.

“A Caça” é filme-irmão do ótimo “Dúvida”, no qual a freira interpretada por Meryl Streep suspeitava e perseguia o padre Philip Seymour Hoffman por motivos parecidos, e do excelente “A Onda”, que mostrava como uma ideia errada é capaz de se espalhar com facilidade.

Com um tema tão forte que rende tantos debates, o filme tem momentos de uma crueldade absurda, como a cena em que o filho de Lucas (Lasse Fogelstrøm) vai até a menina Klara tirar satisfação. Ou a devastadora cena do Natal na Igreja, com aquele olhar de Lucas para seu ex-melhor amigo que diz tanta coisa sem falar nada – os personagens são construídos de maneira tão densa que é capaz de você, espectador, conhecer melhor a garotinha problemática do que seus próprios pais. E a cena final, emblemática, escancara o significado do título e mostra que cicatrizes profundas nunca desaparecem completamente.

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