O kaiju mais famoso do mundo está de volta 16 anos depois de sua última aparição no cinema, quando Roland Emmerich quase enterrou o gênero de vez. O novo “Godzilla” chega no rastro de “Círculo de Fogo”, o blockbuster que resgatou o prazer de se ver monstros gigantes destruindo cidades e esmagando pessoas. E não vamos nos esquecer de “Cloverfield”, que deu novo fôlego para o tema em 2008.
“Godzilla” tem muitos acertos de posicionamento: primeiro, tudo sempre tem que começar no Japão com tsunamis, bombas atômicas e acidentes em usinas nucleares, inserindo a origem do monstro em acontecimentos históricos que estão bem vivos na nossa memória.
Segundo, o design do bicho. Andaram reclamando que ele está com uns quilos a mais, mas rapaz esses sommeliers de malhação reclamam até da Scarlett Johansson. Nosso novo Godzilla tem o layout de antigamente, não é como aquele lagartão de Emmerich. Os espinhos gigantes nas costas proporcionam diversos planos incríveis que homenageiam o “Tubarão” de Spielberg, um clássico kaiju ocidental.
O diretor Gareth Edwards bebe na fonte spielbergiana sempre que pode, mostrando mais uma vez que “Jurassic Park” foi subestimado pelos críticos da época como apenas uma extravagância de efeitos especiais. Toda vez que Edwards parte do micro para o macro, tem um pouco de Spielberg ali. Por exemplo: Las Vegas foi destruída, mas essa destruição não é mostrada. O diretor mostra um quarto de hotel vazio tocando Elvis, depois os bombeiros arrombando a porta, um pedaço do quarto faltando e só no final da cena vemos o exterior com a cidade arrasada, um rastro de destruição e um monstro ao longe seguindo seu rumo. Ou seja: primeiro vem o copo d’água tremendo, depois vem o t-rex. Nas cenas de ação militar, especialmente no mergulho dos paraquedistas, a referência é o Dia D de “O Resgate do Soldado Ryan” com toques evidentes de “2001” no som.
Terceiro, Godzilla não é necessariamente um vilão. É uma força da natureza responsável pelo equilíbrio do ecossistema. Temos outros monstros além dele e isso faz toda a diferença.
Do lado humano, temos os tradicionais problemas de filmes-catástrofe com personagens que até tentam ser um pouco mais profundos mas vão ficando pelo caminho como coadjuvantes de Godzilla que são. Gente burra que não consegue entender o conceito de pulso eletromagnético e continua enviando avião pra combater monstro radioativo.
Bryan Cranston, canastrão e de peruca, é o cientista paranóico que sabe demais. O filho Aaron Taylor-Johnson (“Kick-Ass” em versão anabolizada) é o herói de ação sempre no lugar certo e na hora certa. A mulher dele é a irmã mais nova das gêmeas Olsen, Elizabeth. Ken Watanabe e Sally Hawkins (irmã da “Blue Jasmine”) são cientistas que têm a única função de situar o público com muitos (muitos) diálogos expositivos de temas biológicos. Quando o tema é estratégia militar, o responsável pelas explicações é David Strathairn.
Clichês como a mocinha enfermeira e o plot “temos que destruir o ninho” completam o lado chato do filme, mas nada disso importa quando o quebra pau começa pra valer. O “Godzilla” versão 2014 não se esconde debaixo da chuva ou entre os prédios, mas luta no meio das cinzas dos prédios que vai derrubando pelo caminho, com a trilha grandiosa de Alexandre Desplat se destacando entre um e outro rugido do monstro.
Godzilla voltou bem como uma espécie de Rocky Balboa gigante. Um velho guerreiro ainda capaz de superar o cansaço para enfrentar novas batalhas e ter o seu nome exaltado por uma nova geração. Afinal, proteger o mundo não é exclusividade dos heróis marombados da Marvel.