Devo afirmar que nunca li nenhuma HQ da série “Hellblazer”, portanto não posso afirmar se sua adaptação cinematográfica – “Constantine” – é fiel ou não. Tudo que eu sei é que, nos quadrinhos, o personagem é loiro e inglês. Por imposição do estúdio, o Constantine no cinema ganha a forma de Neo, ou melhor, Keanu Reeves, e vive em Los Angeles, a cidade dos anjos na América.
A comparação com o personagem de “Matrix” não é pura teimosia nerd. Keanu Reeves de sobretudo preto, com poderes de enxergar o que o resto do mundo não consegue e predestinado a salvar a humanidade? Impossível não fazer a associação. Mas, idiotices dos produtores a parte, vamos tentar esquecer a saga dos irmãos Wachowski e dar uma chance ao cara.
John Constantine possui o dom de ver criaturas celestiais (anjos) e infernais (demônios) entre nós. Como tentou suicídio na adolescência, seu destino está traçado: quando morrer, vai direto pro inferno, onde o próprio Lúcifer (Lú, para os íntimos, em rápida participação de Peter Stormare) o espera ansioso. Fumante inveterado, John está com um câncer terminal. Ou seja, ele sabe que vai morrer e sabe que vai passar a eternidade queimando no inferno. Tudo que ele pode fazer é tentar reverter a situação e convencer os superiores celestes de que, apesar de tudo, ele merece ir pro céu.
Por isso, Constantine usa seus poderes paranormais para realizar exorcismos e mandar os demônios rebeldes de volta pra casa. Porém, em uma dessas sessões, ele nota algo estranho: o tal demoniozinho queria realizar a “transição” – passar de vez pro nosso mundo -, algo proibido pelas leis que regem o universo e equilibram as forças do bem e do mal.
Ao investigar os mistérios entre o céu, a Terra e o inferno, o nosso anti-herói (anti porque ele na verdade só está querendo salvar a si mesmo) cruza o caminho da policial Angela (Rachel Weisz, de “A Múmia”), cuja irmã gêmea cometeu suicídio recentemente. Angela não acredita que sua religiosa irmã possa ter se matado, e pede ajuda de John para tentar descobrir o que aconteceu.
A tramóia toda envolve o filho de Lúcifer, um diabinho rebelde que quer sair da sombra do pai, e a Lança do Destino, objeto que matou Jesus Cristo na cruz (ver “A Paixão de Cristo” para mais detalhes) e dá superpoderes a quem a possui.
Com uma história tão interessante, “Constantine” diverte em sua primeira metade com muito ocultismo, forças sobrenaturais e coisas que vimos antes em “Arquivo X”, “O Exorcista”, “Stigmata” e tantos outros filmes. A tal lança resgata a idéia dos objetos bíblicos colecionados por Hitler, artifício manjado desde a época de Indiana Jones e também utilizada em “Hellboy”.
A partir do momento em que os mistérios sobrenaturais são desvendados e a história parte para a ação, “Constantine” perde sua força e vira mais um filme de “herói tentando salvar o mundo” – embora o personagem não perca seu jeitão debochado e irônico, acendendo o cigarro com a mesma naturalidade com que mete a mão na cara de um anjo safado.
O diretor estreante Francis Lawrence, com vários clipes do Aerosmith no currículo, sabe conduzir o filme com estilo e faz bom uso de efeitos especiais, direção de arte e fotografia avermelhada. O estúdio, apesar de suas exigências mercadológicas, não abrandou o tema perigoso que brinca com religião e dogmas católicos.
O problema é que, sabendo da origem do personagem nos quadrinhos (criado por Jamie Delano e Garth Ennis, da Vertigo – parte da DC Comics destinada a quadrinhos adultos), fica uma sensação de que tudo poderia ser bem melhor se Paul Bettany (de “Mestre dos Mares”), a primeira escolha para o papel, estivesse em cena e nos fizesse esquecer de que existe “Matrix”. O roteiro peca por não aproveitar muitos personagens interessantes que ficam pouco tempo em cena, como o demônio Balthazar (Gavin Rossdale, vocalista do Bush, seguindo os passos da patroa Gwen Stefani), o ambíguo anjo Gabriel (Tilda Swinton) e o ajudante Chas (Shia LaBeouf).
Assim, “Constantine” fica perdido entre o céu e o inferno – no caso, bem no meio termo entre uma diversão despretensiosa como “Blade” e, perdão pela insistência, algo mais elaborado como “Matrix”. De qualquer maneira, mesmo com Keanu Reeves repetindo seus trejeitos, “Constantine” é bem menos decepcionante do que “Matrix Revolutions”.