Existem dois tipos de filme na obra de Steven Spielberg: os blockbusters que levam multidões aos cinemas para ver entretenimento escapista de primeira qualidade e os filmes politizados que levam multidões aos cinemas para acompanhar relatos históricos com jeitão de Oscar. Às vezes o diretor (e só ele) consegue lançar um de cada no mesmo ano. Aconteceu em 93, com “Jurassic Park” e “A Lista de Schindler”, e aconteceu em 05, com “Guerra dos Mundos” e “Munique”. A diferença é que a recepção no ano passado não foi tão calorosa quanto na outra década: difícil acreditar, mas Spielberg anda pisando no calo do pessoal. Logo ele, tão criticado por apresentar tramas maniqueístas, otimistas e ingênuas sobre as maravilhas da infância e a importância da família, agora é criticado por apresentar, em “Munique”, os dois lados da eterna briga entre israelenses e árabes – e de forma pessimista. O ufanismo também passa longe, a não ser por uma pequena e divertida participação apaziguadora do americano Al Green (ufanismo cultural vale?).
“Munique” começa com o atentado terrorista nas Olimpíadas de Munique em 1972, quando um grupo árabe invadiu o alojamento de atletas israelenses. A ação culmina na trágica morte de todos os envolvidos – sequestradores e reféns -, o que dá início aos planos israelenses de vingança. É nesse cenário que entra em cena Avner (Eric Bana, o Hulk), de família judia e alistado no Mossad, o serviço secreto israelense. Ele é convocado para liderar um grupo de quatro espiões (entre eles Daniel Craig, o novo James Bond) que devem eliminar os árabes responsáveis pelo planejamento do ataque em Munique. Trata-se do momento “Missão Impossível” do longa.
Assim como em “Guerra dos Mundos”, Spielberg começa a enganar o público logo no título. Se lá não havia guerras interplanetárias de fato, aqui não há quase nada sobre as Olimpíadas de Munique. O começo mostra toda a tragédia do atentado do ponto de vista da TV e dos telespectadores ao redor do mundo. Ao longo do filme, flashbacks vão mostrando detalhes do episódio, atitude sábia do diretor que consegue assim um climax de impacto para sua história.
Mas não é só no título que Spielberg engana os incautos. Se existe um problema (que não chega a ser um defeito) em “Munique” é a sua total despreocupação com a platéia: Spielberg parte do princípio de que todos conhecem minimamente os conflitos entre árabes e israelenses. Portanto ele não perde tempo explicando quem é quem e também não chama o espectador de burro (ou desinformado) com diálogos didáticos sobre o tema. Chamo isso de “problema” pois muita gente desinformada se levanta no meio da sessão e vai embora, provavelmente por não estar a par do conflito. É verdade, o diretor de “E.T.” amadureceu sim, criançada. E em “Munique” ele não tem medo de polemizar com cenas fortes envolvendo sangues, tiros, bombas e até cenas de sexo, algo raro na obra spielberguiana. Também rara é a ausência de um herói. Avner pode até ser o personagem principal, mas está longe de ser um herói tradicional. A princípio relutante, ele vai se tornando um assassino frio e paranóico (em grande atuação de Bana) e só volta a ser humano quando sua família, e principalmente sua filha, dão o ar da graça. Você pode até torcer pelo personagem e por seus amigos o filme todo, mas Spielberg faz questão de humanizar também cada uma de suas vítimas e mostrar que ninguém tem razão de fato desta luta.
Assim, temos mãos trêmulas empunhando armas, assassinos suando com medo, preocupados com a filha da próxima vítima, enquanto os homens marcados para morrer também se revelam pessoas comuns, que procuram abraçar o bicho de estimação como último conforto antes de morrer. Política, postura e ponto de vista à parte, “Munique” também é uma aula de cinema. Os simbolismos de Spielberg vão muito além dos diálogos que colocam em dúvida, a todo momento, a validade das ações e reações dos personagens. Logo no começo, por exemplo, atletas americanos dão uma forcinha para os terroristas árabes pularem a cerca da Vila Olímpica, confundindo os terroristas com atletas. Em outro grande achado do roteiro, terroristas árabes e israelenses são obrigados a dividir o mesmo quarto. E a cena final, que lembra o recente “Gangues de Nova York”, faz uso de um grande marco simbólico de nossa era pra mostrar que ações e reações nunca vão por fim a essa guerra.
Além de um diretor no auge de sua forma, “Munique” conta com uma direção de arte perfeita na caracterização da época. São muitas locações externas completamente adaptadas aos anos 70 com cenários, figurinos e uma fotografia que deixa o branco sempre amarelado para dar aquela impressão de jornal velho. O tom “anos 70” também ganha força nas cenas em que Avner conhece sua fonte, um sujeito misterioso que lembra muito o Don Corleone de “O Poderoso Chefão”.
Como em todos os trabalhos recentes de Spielberg, muita gente vai chiar da longa duração, do final e do enfoque. Mas “Munique” é sim um dos melhores lançamentos do ano passado, um filme que passa sua mensagem em cada milímetro de película, desde o letreiro inicial (com Munique misturada a outras cidades, dando idéia de que a história narrada ali não é isolada) até seu belo plano final.