Johnny & June

De Zezé Di Camargo a Ray Charles, passando por Tina Turner e tantos outros, biografias de astros da música levadas ao cinema costumam seguir um padrão que começa com a infância sofrida, passa por problemas com drogas, mulheres, homens, família, mercado fonográfico, até chegar à inevitável consagração do artista. Dos filmes mais recentes, só a bio de Cole Porter ousou mudar as regras, mas o filme “De-Lovely” acabou ganhando pouco crédito por parte do público. Dando sequência a este filão, “Johnny & June”, a história do casal Johnny Cash e June Carter, não desafia as regras do gênero e nem propõe grandes novidades estéticas ou narrativas, mas atinge plenamente seu objetivo de retratar um período da vida de um dos maiores ícones da música americana com paixão e simpatia.

Baseado na autobiografia de Johnny Cash, “Johnny & June” concentra suas atenções no surgimento do cantor, desde a infância pobre até atingir o sucesso e conhecer o amor de sua vida, a também cantora country June Carter. Vendido no Brasil como um filme de romance, “Johnny & June” não decepciona nem o público que desconhece o músico, nem os grandes conhecedores de sua obra. Os primeiros virão um dos melhores romances lançados no cinema nos últimos anos, enquanto os segundos irão aproveitar todas as canções, referências e momentos históricos como a inacreditável turnê que reunia em um só palco Roy Orbison, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e o Rei Elvis Presley, além do próprio Cash. Seja com o nascimento do amor entre Johnny e June ou com o nascimento do rock como o conhecemos, é impossível não se emocionar.

O diretor James Mangold (de “Cop Land” e “Garota, Interrompida”) abraça sem medo todos os clichês das cinebiografias musicais (como a inevitável cena do assédio das fãs misturada com as paradas de sucesso e capas de revista), mas fornece materiais e ambientações perfeitas para deixar seus astros brilharem: “Johnny & June” pertence a seu casal de protagonistas. Joaquin Phoenix encarna Johnny Cash com direito a voz, postura e trejeitos irretocáveis, tão perfeito quanto Jamie Foxx e seu Ray Charles. E Reese Whiterspoon faz com que todos na sala se apaixonem por June Carter e entendam perfeitamente porque Cash insistiu tanto em se casar com ela. Quem conhece a história futura do casal, principalmente nos últimos anos de vida (lembre-se do clipe de “Hurt”), dificilmente vai conseguir segurar as lágrimas.

Para os que não conhecem nada de Johnny Cash, os números musicais tratam de apresentar seus maiores sucessos. “I walk the line”, “Ring of fire”, “Folsom Prison Blues”, estão todas lá com a voz de Joaquin Phoenix e Reese Whiterspoon – em uma trilha sonora impecável produzida por outra lenda viva do country, T. Bone Burnett.

As primeiras imagens do filme, mostrando a prisão de Folsom instantes antes do histórico show de Cash, são de arrepiar. O discurso de Sam Phillips, dono do lendário Sun Records em Memphis, dando uma aula sobre música pop, também. E para quem acha sujeitos como Pete Doherty o máximo porque ele toma todas e quebra quartos de hotel, é lindo ver Johnny Cash criando o estereótipo do rockstar há mais de 40 anos.

Dos “filmes de Oscar” lançados recentemente, “Johnny & June” pode não ser tão artístico ou politizado quanto seus concorrentes, mas como biografia é fundamental para se conhecer a vida de um dos maiores mitos da música. E como romance, está anos-luz à frente das babinhas juvenis que entopem os Cinemarks da vida. Nada como um amor de verdade, com pessoas de verdade e música de verdade.

Um comentário sobre “Johnny & June

  1. Este filme é tão lindo que acabou me fazendo comprar um cd do Jhonny Cash, com a gravação do show dele na prisão de Folsom. E a cena dele pedindo a June em casamento no meio de um show até inspirou uma música minha… pena que ela não chegue aos pés das canções do \”Homem de preto\”. Parabéns pelo blog e também pela teoria pedestáltica.

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