O anúncio do lançamento de “Magic”, o novo disco de Bruce Springsteen, me pegou de surpresa. Em 2005 ele lançou, solo, o intimista “Devils & Dust”. Em 2006, foi seu tributo a Pete Seeger, “We Shall Overcome”. Ambos elogiadíssimos e vencedores do Grammy. A turnê do último nem tinha acabado e a necessidade de voltar ao rock’n’roll parece ter batido forte no Boss. E quando o Boss quer fazer rock, ele liga para seus funcionários, a E Street Band, e eles param tudo o que estão fazendo e atendem o chamado. E assim, rapidamente, um dos melhores discos do ano foi composto, gravado, mixado e será lançado agora no começo de outubro.
Algumas coisas mudaram desde a última reunião da banda, em 2002, quando “The Rising” ilustrou o impacto do 11 de setembro na vida dos americanos sem apelar para o pieguismo ou qualquer pedido de vingança e guerra. Em “Countin’ on a miracle”, o verso “eu nao acredito em magia” mostrava Bruce Springsteen com os pés no chão e a fé, como sempre, conduzindo seu destino. Depois de criticar a invasão do Iraque e exorcizar demônios em “Devils & Dust”, e passar um tempo revisitando suas raízes no passado de Seeger, parece que a magia voltou a ter espaço no universo de Bruce, ao lado de seus temas clássicos.
“Radio Nowhere”, primeira faixa e primeiro single, é rock de ouvir na estrada correndo muito (tema clássico número um) e pode tanto ser uma crítica à música que vem tocando em rádios ultimamente (“Just searchin’ for a world with some soul“) quanto uma crítica à apatia do mundo em geral (“is there anybody alive out there?“). Tudo isso disfarçado de uma procura pelo bom e velho rock’n’roll (“I want a thousand guitars, I want pounding drums, I want a million different voices speaking in tongues“).
Três dos melhores momentos do disco vêm da afinação entre o produtor Brendan O’Brien e a E Street Band: “You’ll Be Comin’ Down”, “Your Own Worst Enemy” e “Girls In Their Summer Clothes” são o mais próximo que alguém pode chegar de Phil Spector e sua “parede de sons”.
E que parede forma a E Street Band. Dois dos guitarristas mais respeitados do mundo, Little Steven (ou Steven Van Zandt, que nas horas vagas fez história na TV em “Os Sopranos”) e Nils Lofgren (que já tocou, entre outros, com Neil Young), o baterista Max Weinberg, o baixista Garry Tallent, os tecladistas Roy Bittan e Danny Federici, a Sra. Springsteen Patti Scialfa alternando violão e backing vocal. E quando o inacreditável saxofonista Clarence Clemons aparece, você chega a entender o nome do álbum.
Apesar do título, “Livin’ in the Future” tem um pé no passado de “Born in the USA” (o disco, não a música). Já “Gypsy Biker” é a grande canção rock’n’roll do disco (e talvez do ano). Com uma gaita rasgada ao fundo e guitarras no talo, Bruce canta a saga do motoqueiro cigano voltando pra casa. Seria de se ouvir cruzando a América pela route 66 numa Harley, se o tal motoqueiro não fosse um veterano de guerra voltando pra casa num caixão.
Mas Bruce Springsteen também se cansa e comete erros. Os momentos menos preciosos do disco chegam com “I’ll Work For Your Love” (tema clássico número dois) e “Magic”, que não tem força suficiente pra carregar o título nas costas. Embora seja uma boa balada folk dos tempos de “The Ghost of Tom Joad”, parece meio deslocada nesta coleção de pérolas de pop (perfeito) e rock (de levantar estádio). Mas que se dane, o banjo de Little Steven é sempre bem-vindo e o arranjo de cordas é uma beleza.
O disco volta à estrada e ao rádio em “Last to Die” e aparentemente Bruce também volta aos temas politizados. O verso “o último a morrer por um engano” faz ainda mais sentido quando a música seguinte é “Long Walk Home” e você pensa nos soldados americanos querendo voltar pra casa. Voltar pra casa tem sido outro tema clássico da carreira de Bruce Springsteen desde que ele amadureceu o suficiente pra perceber que não adianta fugir de casa, se você não sabe aonde quer chegar. O grande compositor manda: “Everybody has a neighbour, everybody has a friend, everybody has a reason to begin again“.
Um belo manifesto anti-guerra, “Devil’s Arcade” é o que se espera de uma grande apoteose para um grande disco. Serve para lembrarmos que além de grande cantor e compositor, Bruce também é um grande performer, pois é sua interpretação sensível que comanda o final do espetáculo.
Ao final, “Terry’s Song” surge com uma espécie de bonus track adicionada de última hora em homenagem ao amigo e colega Terry Magovern, que faleceu no final de julho. A singela canção acústica é uma das mais belas provas de amizade que já vi em forma de música. “Quando fizeram você, irmão, eles quebraram a forma“. A sinceridade da coisa emociona mesmo quem nunca soube da existência do sujeito.
O que leva um astro consagrado e milionário beirando os 60 anos a engatar um álbum atrás do outro e suas respectivas turnês pelo terceiro ano consecutivo se não o mais puro, genuíno e honesto amor ao rock? Poucos artistas envelheceram tão bem quanto Bruce (David Bowie, talvez?), com tanto vigor e ainda com tanto a dizer. Se essa não é a tal Magia do título, então não sei qualé.
ótimo texto!e quarteto dos melhores tiozões do rock: boss, bowie, dylan e neil young.
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legal….espero que logo vc faça a resenha de um show dele…e espero que eu leia a sua resenha e relembre o momento que eu estive lá…
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lagriminhas com os dois comentários acima.
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ele vem?
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Lindô! Nem vou fazer resenha no meu blog, seu chupa springsteen!
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