Top 10 Pulp

Dia 28/11, além da semifinal da Sulamericana entre o São Paulo e a Universidad Católica, tem show do Pulp na cidade. Única apresentação da banda no Brasil, acho que vale uma homenagem.

Não lembro como exatamente conheci o Pulp, se foi com “I spy” no CD da trilha de “Missão Impossível”, com “Like a friend” no CD da trilha de “Grandes Esperanças”, ou se foi direto no Napster, onde baixei a dupla “Common people” e “Disco 2000”. Estávamos nos anos 90, a década de ouro do britpop de Oasis e Blur, a era da conexão discada e da espera pelo bug do milênio.

Grande parte da magia do Pulp está nas letras. Não tem muita gente na música pop capaz de fazer o que Jarvis Cocker faz (ou fazia). Aquelas letras maravilhosas que contam histórias melancólicas e irônicas, cheias de referências culturais e metalinguagem, com o narrador rindo de suas próprias desgraças e de seus relacionamentos falidos ou questionando a condição humana. Hoje vejo Jarvis Cocker como uma mistura de Xico Sá com Morrissey, com uma capacidade assombrosa de rechear suas histórias com as mais lindas melodias.

O Pulp é uma banda cinematográfica, cada música parece um curta-metragem. O ponto alto da carreira, a trilogia de álbuns dos anos 90 “His’n’Hers” (1994), “Different Class” (1995) e “This is Hardcore” (1998) tem cara de série, cada música um episódio.

Mais do que fazer boa música pop, trata-se de uma banda inspiradora, principalmente se você gosta de escrever, ouvir, contar ou assistir a histórias. Por isso fiz um top diferente com minhas interpretações absolutamente pessoais sobre as 10 músicas escolhidas. Fique à vontade para deixar suas próprias interpretações nos comentários.

O que importa é que, na semana que vem, Jarvis Cocker estará no palco do Via Funchal contando essas histórias pra gente.

10. A LITTLE SOUL

I look like a big man
But I’ve only got a little soul

Um pai ausente, cheio de mágoas, decepções e arrependimentos dá conselhos para o filho já crescido, que assim como ele não consegue se dar bem com a própria mulher. O pai implora: você se parece comigo, mas por favor não se transforme em mim. Melancólico, o pai diz que teve seus três ou quatro momentos de felicidade, que agora se parece com um homem grande, crescido, mas tem uma alma pequena. É o pai que não amadureceu. Os mesmos pais de “Cats in the cradle” e “Pais & filhos”, são crianças como você. Ele queria ter sido um exemplo, ter ficado ao lado do filho e lutado pelo que era correto, mas não fez nada disso. Ele não tem nenhuma sabedoria para passar adiante. No final, em um último lamento, o pai de coração partido confessa que fugiu da única coisa que fez na vida, o próprio filho. Agora ele só queria poder mostrar a esse filho um pouco de alma. Há um jogo de palavras com o título: em determinado momento, é uma alma pequena. No outro, um pouco de alma.

9. HELP THE AGED

In the meantime we try
Try to forget that nothing lasts forever

Você já esteve em um asilo? O mais belo tratado sobre a terceira idade já registrado em forma de música não esconde seu propósito nem no título: ajude os velhinhos. Um dia eles já foram iguais a você. Não simplesmente os coloque numa casa. Eles não se divertem sozinhos. Dê uma mão, dê esperança, dê conforto, porque o tempo deles está se esgotando. Enquanto isso nós tentamos nos esquecer de que nada dura para sempre. Um dia você também vai envelhecer, vai precisar de alguém pra te empurrar. Se você olhar bem atrás daquelas rugas, você vai ver seu próprio futuro, e é um lugar tão solitário. Não dá pra fugir de si mesmo. Jarvis é cruel no recado, mas deixa tudo bem claro. Todos nós temos o mesmo destino, é inevitável e com sorte vai ter alguém te ajudando quando você chegar lá. É engraçado como tudo desaba.

8. UNDERWEAR

How the hell did you get here?
Semi-naked in somebody else’s room

Jarvis apresenta-se como voyeur da garota amada, mesmo que ela esteja prestes a se encontrar com outro. Ela está no quarto, esperando este sujeito. Como diabos ela foi parar ali, seminua no quarto de alguém? A moça trabalha com moda, então Jarvis imagina que, estando nua, ela está desempregada. Um pequeno desaforo, só para tentar diminuir a tão evidente importância da moça. Mas agora é tarde, não tem como fugir, o cara está chegando para vê-la vestida apenas com sua lingerie. Era isso que ela queria, mas ela reluta em tocá-lo, em entregar-se para ele. Fica a expectativa, o suspense, uma hora ele vai tocá-la, afinal ele é um homem e ela é uma mulher – que está apenas de calcinha, frágil e indefesa, sempre bom lembrar. Mais cedo ou mais tarde a desgraça estará feita. E Jarvis daria tudo para estar ali vendo, mas não está. É tudo uma fantasia dele? Imaginar a amada distante – pode ser uma ex, ou aquela paixão platônica que nunca lhe deu chance – se entregando para alguém é doentio, mas inevitável. Um dos maiores tormentos do homem. Então a gente simplesmente inventa que ela está sofrendo ao fazê-lo, quando na verdade, todos sabemos, ela não está.

Obs.: essa música representa outro lado do voyeurismo de “Babies”, quando o adolescente cheio de hormônios se esconde no armário para observar a irmã mais velha da menina por quem ele é apaixonado e acaba transando com ela.

7. BAD COVER VERSION

Such great disappointment
When you got him home
The original was so good
The one you no longer own

Ser substituído dói. Todos já passaram por isso. A moça que te deu um pé na bunda já encontrou um novo amor. Como lidar com o rancor? Fingindo que está tudo bem, fingindo acreditar que você é muito melhor que o cara novo. Melhor: ria da situação, aquele riso nervoso, dizendo que o cara novo é uma cópia mal feita de você mesmo. Jarvis conta que uma antiga namorada recorreu à religião para substituí-lo, mas nunca funcionou. O recado é uma pérola da falsa auto-estima: minha filha, nem Deus é capaz de me substituir. Toda vez que ele te toca ou te beija, você se lembra de como seria muito melhor se fosse eu. Uma versão cover ruim do amor não é de verdade, mas você não possui mais o original, então vai esse mesmo. Não é fácil me esquecer, é tão difícil desconectar-se. Mas Jarvis não engana ninguém, nós sabemos que ele está sofrendo, e homens apelam quando sofrem. No final ele deixa uma lista de imitações tristes que deram errado: Tom & Jerry falantes, os Rolling Stones desde os anos 80, o Planeta dos Macacos da TV. Porém, “Alta Fidelidade” nos ensinou que uma listinha pop da depressão jamais vai curar uma bela dor de cotovelo.

6. THE FEAR

When you can’t even define what it is that you’re frightened of
This song will be here

Já teve um ataque de pânico daqueles bem violentos, no qual você acha que vai morrer sem saber o motivo? Falta o ar, o coração dispara, o mundo gira, o desespero bate. Um medo terrível. Aqui, a banda encara o desafio de criar o som definitivo do medo. Curioso como ele se confunde com o som da solidão. É uma trilha sonora de horror. O som de alguém perdendo o controle, fingindo estar ok. Não é uma canção agradável, eles avisam: você vai gostar, mas não muito. O refrão anunciado é mais ou menos assim: aí vem o medo novamente, o fim está próximo novamente. Você está preocupado, aí vem mais um ataque de pânico. Uma música pra cantar quando você está triste, solitário, quando tudo dá errado, quando você desistiu de procurar beleza ou amor, quando você nem sabe mais o que te deixa tão apavorado. Essa é a música. Um solo de guitarra tétrico gela a espinha no final, porque como os filmes do Tim Burton nos cansam de mostrar, existe muita beleza no horror.

5. I’M A MAN

So please can I ask just why we’re alive
‘Cos all that you do seems such a waste of time?

Jarvis acabou com o Pulp uma vez porque não se via tocando em uma banda de rock com mais de 40 anos. Depois voltou atrás, porque quase aos 50 ainda se sentia jovem o suficiente para a função. O que é ser um homem, afinal? Um homem crescido, adulto, maduro, respeitável. Ele aprendeu a beber, a fumar, a contar uma piada suja. É só isso? Então ele pergunta pra que estamos vivos, se tudo que fazemos parece uma perda de tempo. Se você ficar por aí durante um determinado período de tempo, envelhecendo, você será considerado um homem. Simples assim. Ele deixa questões que poderiam ser feitas pelo protagonista do “Clube da Luta”. Você compra um carrão veloz, mas você não tem para onde ir com ele. Você vai mesmo assim, e vai de novo, e nada faz a menor diferença porque agora você é um homem. Não é por acaso que ela vem logo depois de “A Little Soul” no disco. Crescer é assumir uma porção de responsabilidades só porque o tempo passou. Não quer dizer que você esteja preparado para isso.

4. SOMETHING CHANGED

Where would I be now if we’d never met?
Would I be singing this song to someone else instead?

O destino é capaz de pregar peças na gente. Já pensou se você não tivesse saído de casa hoje, o que poderia ter acontecido? Se você tivesse feito um caminho diferente para o trabalho, poderia ter encontrado o amor da sua vida, ou um piano poderia ter caído na sua cabeça. Nunca se sabe o que poderia ter acontecido se você tivesse feito escolhas diferentes no passado. Jarvis começa dizendo que escreveu esta canção duas horas antes de encontrar a moça a quem dedica sua arte. Narra tudo que poderia ter acontecido para que eles não se encontrassem: ele poderia ter ficado em casa, ido pra cama, ou ao cinema ver um filme. Já pensou? Ele questiona. Ela pede para que ele pare de fazer perguntas que não importam. Mas ao fazer isso, ele valoriza mais do que tudo na vida o fato de todos os acasos terem levado os dois a se conhecerem. Aquela magia quando dois destinos se cruzam. Celebremos este momento com um beijo. No final, a última questão: onde ele estaria se não tivesse conhecido aquela garota… estaria cantando esta canção para outra pessoa? Nunca vamos saber.

3. DISCO 2000

And I said let’s all meet up in the year 2000
Won’t it be strange when we’re all fully grown?

Lembra quando você era criança, tinha uma amiguinha que morava por perto e todos diziam que um dia, no futuro, vocês se casariam? Adultos fazem isso, criam compromissos para as crianças logo cedo. Escolhem sua profissão, sua esposa, seu time de futebol. Algumas crianças acreditam nessas previsões. O pequeno Jarvis era uma delas. Ele e Débora nasceram com uma hora de diferença, poderiam ser irmãos. Eles cresceram juntos, frequentaram a mesma escola. E combinaram de se encontrar no ano 2000, quando eles estivessem crescidos, às 2h, na fonte rua abaixo. Mas como toda menina, Débora amadureceu mais cedo que ele. Ela foi a primeira da turma a ter peitinhos, era popular, a molecada do colégio pirava nela. Jarvis, coitado, era só o amigo que a acompanhava na volta da escola. Não significava nada pra ela. Significava tudo pra ele. Chega o ano 2000, Débora está casada e Jarvis continua sozinho. O encontro na fonte nunca aconteceu. Um compromisso de mentirinha, igual aquele feito pelo casal de “Antes do Amanhecer”. O desespero de Jarvis vai crescendo ao longo da música. O refrão outrora esperançoso se torna melancólico. Em uma última súplica em nome de velhas promessas de infância, ele implora para que ela o encontre no próximo domingo. “Você pode até trazer seu baby”, ele diz, mas não sabemos se o baby em questão é o marido ou o filho de Débora. Seja qual for a resposta, machuca.

2. COMMON PEOPLE

You’ll never fail like common people
You’ll never watch your life slide out of view
And dance and drink and screw
Because there’s nothing else to do

A moça grega de família rica estudava escultura na escola de artes. Eles se conheceram ali e ela lhe disse que queria viver como uma pessoa comum. Queria fazer o que as pessoas comuns fazem. Queria dormir com pessoas comuns, como ele, que responde: vou ver o que posso fazer. Ele a leva ao supermercado e diz para ela fingir que não tem dinheiro. Ela ri, diz que ele é engraçado. Ele diz que ninguém mais está rindo. E já incomodado, sugere: alugue um apartamento em cima de uma loja, corte o cabelo, arrume um emprego, jogue sinuca, finja que nunca foi à escola. E ainda assim ela nunca vai conseguir ser uma pessoa comum, porque a qualquer momento o papai pode salvá-la. Ela nunca vai falhar, dançar, beber e transar como uma pessoa comum que não tem mais nada pra fazer. As pessoas comuns vão rir dela. Ser pobre não é legal. Todo mundo odeia turistas, ainda mais aqueles que acham tudo engraçado. Ela nunca vai entender o que é viver uma vida sem sentido e sem controle. Você conhece o tipo. Tá cheio de gente coxinha por aí bagunçando milimetricamente o cabelo, usando roupa de grife com cara de velha e chinelo de palha pra parecer pobre enquanto come um cupcake. Patricinhas intelectuais doidinhas saídas de filmes do Woody Allen, criadas no sucrilhos e no leite com pera, vocês nunca vão entender.

1. LIKE A FRIEND

Come on and kill me baby
While you smile like a friend
And I’ll come running
Just to do it again

Aquela amiga que vem, entra na sua casa sem cerimônias, fuma todos os seus cigarros, abre a geladeira, conta do rapaz que ela está a fim e dos seus rolos mais recentes, sem desconfiar que você está completamente apaixonado por ela. Ela limpa os pés nos seus sonhos. Ela toma o seu tempo como uma revista vagabunda, quando você poderia estar aprendendo algo, sabe, lendo um livro de verdade, tendo um relacionamento de verdade. Ela chega e te mata com aquele sorriso de amiga, e você não consegue seguir adiante, você aceita aquilo de novo e de novo e de novo, porque você foi “friendzoned”. Metáforas de Jarvis Cocker para esta BFF involuntária, declamadas sobre uma guitarra cortante: o último drink, aquele que te derruba; o cadáver escondido no porta-malas; o hábito do qual você não consegue se livrar; seus segredos na primeira página do jornal; o carro que só dá problema; o trem que você não deveria ter tomado; o corte que faz você esconder o rosto; a festa que faz você sentir a idade avançada; um acidente de carro, um avião que vai cair, um filme que é péssimo, mas que você tem que ver até o final. Sorte sua que somos tão amigos. E azar o meu.

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