RoboCop

De todos os updates que o RoboCop recebeu neste remake, o mais divertido é o fato de que o personagem, agora, é fabricado na China. A OCP tem lá uma linha de produção lotada de chineses até onde a vista alcança trabalhando para produzir a melhor tecnologia para a América. Quando se assume made in China, o novo RoboCop já deixa bem claro que não é tão bom quanto o produto original.

A essência do RoboCop do nosso Padilha é a mesma do clássico do holandês Paul Verhoeven: o tira de Detroit que sofre um atentado e ganha um corpo metálico para combater o crime, com políticos, mídia e megacorporações gananciosas fazendo parte da criminalidade. Estão lá, com outras abordagens, as críticas ao imperialismo americano e à sociedade consumista, só que agora tudo mais globalizado. A OCP, proibida pelo congresso de colocar seus drones nas ruas, os vende para os militares fazerem miséria nas intervenções no exterior. O filme abre com um belo prólogo de vários deles, incluindo o clássico ED-209, “pacificando” Teerã.

A tal pacificação já nos leva direto a “Tropa de Elite 2”, com o qual o RoboCop de Padilha tem muitas semelhanças: o apresentador de TV sensacionalista agora interpretado por Samuel L. Jackson; a cena final com sua mensagem escancarada, caso você não tenha entendido até então; e o “chato dos direitos humanos” que neste caso é um senador preocupado com robôs usando armas contra humanos, algo que fere a principal Lei da Robótica criada pelo Isaac Asimov.

Curioso que tanto “Tropa de Elite” quanto “RoboCop” tinham entre suas virtudes as gloriosas frases de efeito, completamente ausentes no novo filme. Em algum momento a nova Lewis (agora um cara, Michael K. Williams) solta um pavoroso trocadilho com o “good cop bad cop”, em outro o próprio Murphy (Joel Kinnaman) solta um tímido “vivo ou morto você vem comigo”. E ainda tem a menção a “eu pagaria um dólar por isso” do Bixby Snyder, solta aleatoriamente pelo personagem de Jackie Earle Haley. Pouco, muito pouco.

Frases de efeito parecem coisas esquecidas nos anos 80 como boas e marcantes trilhas sonoras. A monumental trilha original de Basil Poledouris é apenas lembrada timidamente nos créditos iniciais, enquanto a nova trilha do também brasileiro Pedro Bromfman se limita a repetir o padrão Hans Zimmer de cordas incessantes para manter a tensão – um legado do Batman de Nolan para o cinema.

Legal que Padilha tenha conseguido levar sua equipe para Hollywood. Além de Bromfman estão lá o diretor de fotografia Lula Carvalho e o editor Daniel Rezende. Parece que, depois de chorar porque não estava sendo ouvido pelos executivos, o cineasta conseguiu fazer o filme que queria. Pelo menos é o que ele vem repetindo em cada entrevista.

Então não podemos culpar os executivos pelo clímax frouxo e pela falta de vilões carismáticos como a trinca Clarence Boddicker, Bob Morton e Dick Jones, já que o pseudo Steve Jobs de Michael Keaton nunca chega a ser ameaçador de fato. Eu escolheria aquele marketeiro mala (Jay Baruchel) como vilão principal só para comemorar a sua morte no final. E se o tal gangster responsável por acabar com a vida de Alex Murphy também é descartado com uma facilidade incrível, pelo menos o soldado vivido por Jackie Earle Haley dá um pouco mais de trabalho para o nosso herói.

Do lado do bem, Gary Oldman é sempre garantia de qualidade, carisma e simpatia, mesmo que interpretando um Dr. Frankenstein a serviço do mal.

Talvez a mudança mais sentida em relação ao original foi a forma como Alex Murphy passa dessa para melhor. Não é spoiler, você viu no trailer: seu carro explode em frente à sua casa. Padilha trocou o martírio, o sangue e a dor de um fuzilamento cruel por uma explosão mais intimista, perto de casa, com o filho vendo pela janela e a esposa (Abbie Cornish) socorrendo. Ponto positivo: Murphy ganha mais histórico familiar, mais passado, mais vida. Ponto negativo: é muito mais sem graça. O filme tenta compensar depois, mostrando o que sobrou de Murphy conectado em máquinas, com o cérebro exposto e tudo mais. É o máximo de perturbação que o novo RoboCop é capaz de proporcionar.

O filme tem pouco sangue, nada de vísceras e expõe o rosto de Murphy em sua nova armadura a maior parte do tempo, deixando o humano à frente da máquina. O novo corpo preto do RoboCop perdeu suas referências estéticas de “Metrópolis” e, como diz o personagem de Keaton, ficou mais “tático”. Tão tático que parece GI Joe ou, quando ele sobe em sua moto preta e sai rasgando pela cidade, “Moto Laser”, quem lembra? Pelo menos foram mantidas as limitações de movimento do personagem e ele não tem aquela malemolência de personagens invertebrados em CGI.

Melhor e mais inteligente que a média dos blockbusters atuais, bem superior ao remake de “O Vingador do Futuro” ou essas ficções pretensiosas como “Elysium”, o novo RoboCop sente falta de mais personalidade, como sua armadura genérica e o uso de ED-209 como cenografia de luxo. Ironicamente, o RoboCop com o rosto humano exposto tem menos personalidade que os olhos de Peter Weller escondidos por trás do visor. Há a angústia do amputado, mas não há crise de identidade ou de memória. Pelo contrário, ele sempre sabe de tudo, tem todas as informações o tempo todo. Sinal dos tempos? Talvez seja essa a mensagem do novo RoboCop: o mundo está cheio de conteúdo, mas tá faltando um pouco de alma.

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