
Pela primeira vez na história, o São Paulo foi eliminado pelo Palmeiras na Libertadores. Foi também a primeira eliminação de Crespo desde que chegou e ele fez questão de tornar o momento inesquecível, escalando mal, substituindo mal e indo parar no bolso do pijama do Abel que, convenhamos, nem teve tanto trabalho assim. O português já prometeu revelar o segredo da vitória em um livro a ser escrito no futuro e eu espero que ele reserve um capítulo todo especial ao chute do Pablo.
Sabemos que a culpa não é exclusiva do nosso técnico, nem do Pablo. O trabalho de Crespo não tem sido fácil com pandemia, calendário, convocações, dívidas, arbitragens, vizinhos espiões, lesões e o próprio departamento médico do clube jogando contra.
No jogo de ontem, Crespo não teve Luciano, há meses entregue à máquina de moer músculos do REFFIS. Não teve Benitez, que estava no banco, porém sem condições de jogo. Enquanto a gente discutia sua capacidade de marcação ou se ainda há espaço pra meia armador ofensivo no futebol moderno de terceiros volantes, aparentemente o motivo da sua ausência era apenas mais uma lesão. Os vascaínos avisaram, nós que escolhemos nos iludir.
Crespo também não teve Calleri, nem Benedetto. Teve Pablo e Vitor Bueno, uma dupla já consagrada por todos os desserviços prestados. Estou tentando ser uma pessoa melhor e tentei ser grato a ambos por nos tirarem, pelo menos por algum tempo, da zona de rebaixamento no Brasileiro. Porém, gratidão tem limite e o meu foi estabelecido na isolada de bola que o primeiro cometeu no lance que poderia ter definido o jogo, um gol que qualquer centroavante menos o Pablo faria, uma bola que foi parar lá no Villa Country. O segundo ainda seria expulso após tentativa de homicídio, mas aí a vaca já tinha ido pro brejo e o porco pra semi.
Crespo teve Arboleda indo pro ataque entregar a bola pro seu time do coração, sem conseguir voltar. Teve Rigoni perdido no ataque, esperando uma bola como aquela que seu colega isolou. Teve Tiago Volpi em mais uma noite infeliz, mesmo fazendo uso do recurso da barreira dessa vez. Crespo achou melhor deixar aquela bagunça na zaga do que confiar no Reinaldo, mas isso não vai aparecer em documentário de superação. Crespo tirou o Luan pra colocar o Rojas. Mais que uma substituição, um grito de socorro.
Além de tudo isso, Crespo não teve um jogador pra chamar a responsabilidade, botar ordem na casa e decidir o jogo. Se ainda houvesse um atleta vitorioso multicampeão intergaláctico disponível no elenco, em forma e em campo, não é mesmo?

No mês passado, tivemos a honra de participar do programa Bola da Vez da ESPN, convidados pelo Plihal para fazer uma pergunta ao Profeta Hernanes, que estava se despedindo do clube. Eu perguntei se tinha alguém no elenco com perfil para ser o seu sucessor, alguém com potencial para se tornar um novo ídolo. O Lugano estava no programa e achou a minha entrada muito violenta. Já o Hernanes pensou, pensou, citou o Antony que já foi embora e no final concluiu que não, não tem. Eu venho pensando nisso desde então.
Obviamente que temos o Miranda, um jogador já marcado na história do clube e que não precisa provar mais nada pra ninguém. O resto, bem… Hernanes já tinha falado, da maneira cordial que lhe é peculiar, que as joias de Cotia já estão com a cabeça na Europa. Os gringos do elenco, penso eu, não devem ficar tempo suficiente pra construir uma bela história. E o Daniel Alves, que poderia ser um ídolo temporão, já deixou bem claro que não está interessado na vaga. Para ser ídolo, é preciso ter um mínimo de identificação com a torcida e ele simplesmente não consegue.
Imagino que todo são-paulino quis amar Daniel Alves desde que ele chegou com aquela festa toda. Como não se empolgar? O cara mais vitorioso da história. O melhor lateral do país. Um cara apaixonado pelo clube desde a infância. O que poderia dar errado?
Lembro do início de sua trajetória, depois de uma vitória suada contra o Avaí em casa, quando ele reclamou que a torcida não estava fazendo pressão suficiente. Disse que formar seres humanos era mais importante que ganhar jogo. Perguntou se era proibido ser feliz e, alheio à felicidade da torcida, foi ser feliz com a molecada da seleção olímpica. Desfalcou o time em momentos importantes que conseguimos superar sem ele: a final do Paulistão por lesão, os mata-matas de Libertadores e Copa do Brasil por vaidade.
Então, ainda que deslocado no meio de todos aqueles atletas bacanas que a gente aprendeu a admirar nas Olimpíadas, ele ganhou o tão sonhado ouro. E quando tudo parecia ter se acalmado, deu aquela declaração estapafúrdia cobrando dívida e se colocando acima do São Paulo. Não contente em ofender a torcida do seu time, comprou briga com o resto do Brasil e com todos os demais atletas olímpicos pra defender a CBF e a Nike. Ou pelo menos foi o que pareceu, a gente nunca sabe exatamente o que ele está tentando dizer.
No meio de tudo isso, destaco sua participação no Bem, Amigos!, onde esteve muito à vontade falando de vinhos caríssimos com seu amigo Galvão Bueno. Ali ele falou que se considera um produto e mencionou termos como custo-benefício e valor agregado, e então ficou tudo bem claro pra mim. Consegui imaginar os dois sentados em uma praia da Riviera Francesa trocando impressões sobre vinho ao lado de gente como o Bono do U2, o Jerry Seinfeld e qualquer outro exemplo de ídolo do meu passado que parou de falar a minha língua e perdeu toda a conexão comigo simplesmente porque ficou rico demais. Eles vivem em outra realidade e têm outra maneira de ver o mundo. Nós, mortais, jamais entenderemos.
Por isso, a crítica a ele é diferente da crítica a um centroavante perna de pau ou a um goleiro mão de alface. Pablo e Volpi, com todo o respeito, nunca foram candidatos a ídolos. A gente espera algo sobrenatural do amigo do Messi e não recebe nem o básico. A eliminação também não foi culpa exclusiva dele, mas Crespo teve o maior campeão de todos os tempos contra o Palmeiras e a sua dourada presença não agregou valor nenhum.
Daniel Alves é um produto que nunca foi nosso, até porque o clube ainda não conseguiu pagar por ele. Então, em suas próprias palavras, ele pertence ao mundo. Um craque que conquistou tudo na carreira, menos a nossa torcida. Um produto que vale ouro, mas que aqui no São Paulo nunca deixou de ser pirita.
Eu tenho uma porção
Raul Seixas
De coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado