
Trabalhei no modo presencial durante exatos 20 anos, de 2000 a 2020. Foram 3 anos em Pinheiros, 16 no Alto da Lapa e 1 no Brooklin, sempre morando entre a Vila Mariana e a Saúde, ou seja, com um bom tempo de deslocamento. Fiz esses trajetos de ônibus, de metrô, de carro, houve uma época em que não aguentava mais dirigir e voltei pro transporte público, trocando congestionamentos infinitos por aglomerações claustrofóbicas de seres humanos. Sempre um enorme prazer.
Fazendo um cálculo com a média de dias úteis por ano e o tempo gasto pra ir e voltar (umas 2h por dia, estou sendo generoso), dá pra chutar que passei umas 10.000 horas nesses deslocamentos. Isso corresponde a 420 dias, mais de um ano da minha vida vivendo no trânsito de São Paulo.
No final de 2019 eu me mudei para mais próximo do trabalho, mas veio a pandemia e eu só aproveitei a curta distância por uns 3 meses. Então descobri que existe essa maravilha chamada home office e minha vida mudou completamente. Mais horas de sono, mais horas livres para passar com a família, fazer uma caminhada, um curso, uma consulta, ir ao mercado ou ver um filme, e o principal: nenhuma hora no trânsito. Zero.
Rapidamente me adaptei à nova rotina, montando minha estrutura de trabalho domiciliar com o pôster do Fox Mulder na parede (um antigo sonho) e respeitando os horários de entrada, de almoço, de cafezinho e de saída, porque sou desses. Você pode falar que é coisa do meu signo (virgem), que eu sou CDF desde criança, que sempre fui organizado, metódico e responsável, mas eu diria simplesmente que nasci pra isso. Não sei como passei 20 anos vivendo de outra maneira.
A economia não foi só de tempo: passei a gastar quase nada com combustível. Um carro a menos na rua, benefício para o meio ambiente. Um cidadão a menos amassado no ônibus. Como a gente passa a maior parte da vida no trabalho, desenvolvi esse hábito de me sentir em casa no trabalho pra conseguir sobreviver. Então, quando a minha própria casa se transformou no meu trabalho, foi um caminho natural. Não tem os colegas por perto, mas a tecnologia e os aplicativos resolvem. Dá pra usar o banheiro sem ser julgado. Dá pra passar o dia com bermuda de moletom. Dá pra passear com o cachorro na hora do almoço. Para alegria dos chefes, dá até pra trabalhar doente. Nunca mais precisei comprar tantas roupas e calçados. Passei a me alimentar melhor, comendo menos porcaria na rua. Enfim, a vida como ela sempre deveria ter sido.
Porém, como em tudo na vida, existe o outro lado: aquele cheio de pessoas ruins. Maldita polarização.
O mundo é tão desgraçado que precisou haver uma pandemia pra que esse modelo fosse sequer cogitado. Vamos ser sinceros, fomos pro home office porque não havia outra opção. Assim que a pandemia acabou, muito home office acabou junto, porque muito chefe faz questão de estar de olho, porque confiança não existe no mercado de trabalho, porque vagabundo abusa mesmo, prejudicando os virginianos como eu que levam essa porra a sério, e porque, pra muito patrão desse Brasilzão que chora no banho de saudade da escravidão, se o trabalhador não estiver passando perrengue, ele não presta. Tem que se esforçar mais. Tem que acordar mais cedo. Tem mais é que se foder.
O recente debate sobre o fim da escala 6×1 deixou claro que aqueles de sempre continuam querendo chicotear o lombo do funcionário e que trabalhador não pode ter tempo livre porque gasta tudo em cachaça e jogo do tigrinho. Somos todos obrigados a sacrificar nossas vidas para que o pobre empresário empreendedor siga empreendendo e, em sua benevolência, continue nos dando o privilégio de poder trabalhar pra eles. É assim que funciona o capitalismo e quem não concorda que vá pra Cuba.
Tenho sorte de ainda estar no home office até hoje, com presencial uma vez por semana, o que eu acho ótimo, e de trabalhar na clássica escala 5×2. Se tivesse coragem, segurança e a certeza de conseguir trabalhar o resto da vida em home office, ia embora de vez dessa cidade maluca pra quem eu já doei uma boa parte da minha vida e que já me deu tudo o que tinha que me dar. Infelizmente, o fantasma do fim do home office continua assombrando nossas vidas em cada notícia plantada por alguma indústria que lucra com nossa saída de casa e em cada eleição vencida por candidatos que desprezam qualquer benefício ao trabalhador. Mas quem sabe um dia?
A vantagem é que o ponto de vista ou, como eles dizem, o mindset mudou e não tem mais volta. Agora sabemos que nem todo mundo precisa sair de casa pra trabalhar. Sabemos que o home office é possível e que funciona. Agora olhamos pra tudo de uma maneira diferente. Na minha ida semanal ao escritório, eu vou olhando pro trânsito dessa cidade e praquele monte de gente indo pra lá e pra cá e pensando como essa gente toda aguenta, como eu mesmo aguentei. Aproveito pra resgatar um velho hábito: imaginar historinhas fantásticas para cada um daqueles desgraçadinhos presos nos fluxos do trabalho e da cidade. Algumas dessas historinhas estão aqui, outras ainda estão na minha cabeça.
Faço isso pra tentar encontrar um sentido nisso tudo. Ainda não encontrei nenhum, mas vou avisando. Como estou morando ainda mais ao sul da cidade, também aproveito o trajeto pra acompanhar as obras do monotrilho que vão transformando uma parte da Zona Sul em Gotham City, pensando na quantidade de pessoas que vai continuar se deslocando pra lá e pra cá durante muitos dias da semana pra manter essa cidade em movimento. Porque São Paulo é uma locomotiva que não pode parar, então você não pode ficar em casa. Boa sorte, bom trabalho e boas viagens a todos nós.